Serra da Chapadinha sofre nova onda de degradação após expulsão de ambientalistas
Serra da Chapadinha está ameaçada Crédito: Divulgação
O banho relaxante do fim do dia — aquele momento em que a água quente lava o cansaço da rotina — parece um ato isolado e cotidiano. Mas poucos sabem o que acontece bem antes de o líquido chegar à torneira. Enquanto milhões de baianos desfrutam desse conforto, quem protege a origem dessa água vive sob a mira de armas, teve a casa incendiada e foi forçado ao exílio.
A ameaça não é invisível. Ela ronda a Serra da Chapadinha, um santuário ecológico de 18,4 mil hectares distribuído entre os municípios de Itaetê, Ibicoara, Mucugê e Iramaia, na porção sul da Chapada Diamantina. O local é parte vital do sistema hídrico da Bacia do Rio Paraguaçu — responsável por abastecer mais de 60% da Região Metropolitana de Salvador. Mais do que uma paisagem preservada com 90% de vegetação nativa, a serra funciona como uma gigantesca caixa-d’água natural, alimentando rios e mantendo o abastecimento mesmo nos períodos de seca mais rigorosos.
No entanto, toda essa riqueza hídrica e ambiental transformou-se em alvo da cobiça de grileiros, mineradoras e da especulação imobiliária, onde lotes chegam a ser comercializados por mais de R$ 360 mil por hectare.
Após anos de denúncias e forte mobilização de pesquisadores e ambientalistas, o território finalmente ganhou proteção jurídica oficial por meio de um decreto estadual. A medida foi celebrada como uma vitória contra o avanço predatório na região. Contudo, a conquista veio acompanhada de um vazio perigoso: a ausência total do Estado no chão da serra.
Sem uma base fixa de fiscalização, gestores ou policiamento, o território virou uma “terra sem lei”. A denúncia é de Alcione Correa, uma das ambientalistas que dedicou mais de uma década à preservação da área ao lado do companheiro, Marcos Fantini. O casal deixou o ABC Paulista em 2010 para transformar a base de montanha conhecida como Toca do Lobo em um polo de pesquisas científicas, turismo sustentável e catalogação de fauna — incluindo descobertas fascinantes, como uma espécie de água-viva de água doce ainda não catalogada na Bahia.
A dedicação à preservação, contudo, cruzou o caminho de interesses criminosos. Em 2021, a pressão sobre a região aumentou com a chegada de grupos ligados à mineração. A resistência pacífica do casal passou a incomodar, culminando em episódios de extrema violência em 2026.
Na madrugada de 1º de maio, os ambientalistas foram acordados por homens fortemente armados. Destruíram equipamentos de comunicação e energia, obrigando o casal a fugir a pé por mais de 15 quilômetros de trilhas em uma área isolada. Meses depois, mesmo com os moradores já abrigados longe dali, a Toca do Lobo foi totalmente incendiada e destruída. Desde então, relatos de desmatamento e ocupações irregulares continuam chegando, sem que nenhuma vistoria oficial tenha sido realizada no local.
Para os ambientalistas, o golpe mais duro, além da perda da própria casa, tem sido o silêncio institucional do governo estadual diante da violência sofrida por cidadãos que cumpriam um papel de interesse público.
Com o inquérito policial sob sigilo de Justiça e sem nenhum indiciado até o momento, o casal clama por duas frentes urgentes:
- Presença do Estado: A criação imediata de um plano de ocupação com base fixa e fiscalização permanente, utilizando recursos já previstos pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).
- Responsabilização: A identificação e punição dos executantes, mandantes e financiadores dos ataques e incêndios.
Enquanto o poder público não ocupa efetivamente o território, a Serra da Chapadinha permanece protegida apenas no papel e vulnerável na prática. E a água que abastece indústrias, comércios, o agronegócio e o seu banho diário continua correndo sérios riscos. Fonte: Correio 24hrs

