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Entre o acaso e a falta de estrutura: os dilemas e as reflexões sobre o futebol brasileiro

O Santos de Neymar passou o primeiro turno flertando com o rebaixamento e agora luta por vaga na Libertadores – Foto: Raul Baretta/ Santos FC

A reta final da temporada do futebol brasileiro escancara um velho sintoma: a oscilação constante dos clubes. Sequências de vitórias e derrotas se alternam rapidamente. Devido ao equilíbrio técnico e a uma infinidade de variáveis, basta um “cochilo”, um erro de arbitragem ou uma falha individual para transformar radicalmente o destino e o desempenho de uma equipe.

Nesse cenário de instabilidade, a solução mágica da cartolagem costuma ser a mesma: a troca precipitada de treinadores, na esperança de um “fator novo”. Às vezes, a mudança funciona, impulsionada pela competência do profissional ou por reações puramente emocionais e ocasionais. Mas o problema é muito mais profundo.

Muitos analistas cometem o erro de desprezar o acaso, tratando-o como mera ignorância científica. O acaso, contudo, não é sorte ou mistério; são fatos inerentes ao esporte cuja hora e local exatos não podemos prever. São jogadas geniais que surgem do improviso e craques que reinventam o caminho em segundos.

Contudo, enquanto a bola rola, o futebol brasileiro clama por evoluções urgentes dentro e fora das quatro linhas. É inadmissível conviver com tantos jogos tumultuados, simulações intermináveis, reclamações excessivas, calendários sufocantes e gramados em estado deplorável.

Em contrapartida, modelos de gestão bem-sucedidos mostram o caminho. É preciso investir de verdade nas categorias de base, injetando recursos e conhecimento técnico-científico — a exemplo do que faz o Palmeiras, que revelou talentos bilionários para a Europa, reinvestiu no elenco, manteve a competitividade e ainda lucrou alto.

O futebol não existe em uma redoma; ele é um espelho da sociedade. Assim como o Brasil arrasta há décadas problemas estruturais insolúvidos — como corrupção, violência, deficiências na educação e baixa produtividade —, o esporte nacional patina em sua modernização. Continuamos sendo o “país do futuro” que reluta em chegar.

Enquanto as reformas profundas não vêm, a pressão recai sobre os técnicos, divididos entre a glória imediata e a demissão sumária. É a gangorra do pragmatismo: se o Grêmio escapar do rebaixamento e levar a Copa do Brasil, o discurso será de genialidade; se falhar, a culpa será de um elenco herdado. Se o Flamengo não faturar o Brasileirão após cair nas copas, a exigência implacável da torcida resultará na demissão do comando técnico. A linha entre o sucesso e o fracasso é tênua e cruel.

No fim das contas, o futebol é muito mais do que um jogo de surpresas: é uma lição diária de humildade e uma metáfora da própria fragilidade humana.

Vale destacar, por fim, o brilhantismo do cenário atual comemorando grandes conquistas, como a emocionante vitória do Cruzeiro feminino na Copa Libertadores, coroada após um eletrizante empate por 4 a 4 e a consagração nos pênaltis contra o Corinthians. Fonte: A Tarde