Ignorado, abrigo na fronteira com Venezuela tem fome e superlotação

No segundo dia de visita para conhecer o acolhimento de imigrantes venezuelanos em Roraima, nesta sexta (18), a comitiva de cinco ministros cancelou a parada no superlotado abrigo Janokoida, onde dezenas de indígenas da etnia warao acampados passam fome do lado de fora à espera de vaga.

“Queria falar diretamente com o ministro da Defesa sobre comida”, disse o aidano (cacique) Armando Moraleda, 51, que está no abrigo, mas tem parentes e comunitários ao relento. “Os militares não deixam sair com comida para levar pra eles. Dizem que é uma ordem de cima.”

Com capacidade para 280 pessoas, Janokoida abriga cerca de 440, segundo a ONG Fraternidade Internacional, responsável pela gestão. O abrigo está em reforma para ampliar o espaço para redes.

Há consenso entre os que trabalham com o fluxo de venezuelanos que os waraos têm enfrentado mais dificuldades, com abrigos superlotados e falta de perspectivas.

Por outro lado, mais de 4.000 já foram redistribuídos para outras partes do país, como São Paulo e Manaus.

Diferentemente dos não indígenas, os waraos não participam do programa de interiorização. Centenas já viajaram por conta própria a cidades de Amazonas e Pará, mas muitos acabam ficando em Roraima, onde não há um programa específico de integração.

Para esperar a comitiva, foi montada uma exposição com artesanato indígena, feito principalmente com fibra de buriti. Algumas mulheres também usaram trajes típicos.

Do outro lado da rua, cerca de 50 waraos se amontoavam no terreno em volta da sede do Conselho Tutelar de Pacaraima, cidade a 230 km de Boa Vista. Além de redes, os poucos pertencem se acumulavam em malas velhas e bolsas.

Perto do horário do almoço, a única comida era uma panela de macarrão com frango.

Há uma semana ao relento, Rosaura Sánchez, 48, diz que os waraos têm recolhido latas para comprar comida, geralmente um quilo de arroz ou um pouco de salsicha. “Tem dia que só dá um pão por família. Os militares não autorizam nada de comida [do abrigo], nem um prato.”

Convivendo diariamente com os waraos, a conselheira tutelar Janmara Fischer confirmou que falta comida e que a situação é de penúria. “À noite, eles dormem na varanda do Conselho. Quando chove, também se amontoam aqui. É uma situação crítica.”

Fischer alega que a responsabilidade é do governo federal. O Conselho Tutelar dispõe de apenas cinco pessoas, diz, e tem problemas de custeio. “Nosso salário é de R$ 860, limpo. Quem olha por nós?”

A comitiva de ministros era formada por Fernando Azevedo (Defesa), Osmar Terra (Cidadania), Ricardo Vélez (Educação) Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Wagner de Campos Rosário (Transparência).

Em Pacaraima, conheceram instalações da Operação Acolhida perto da fronteira, como o hospital de campanha – faltou apenas o abrigo. Na quinta (17), visitaram as instalações em Boa Vista.

Responsável pela visita, a Acolhida, gerida pelo Exército, afirmou que faltou tempo para ir ao abrigo warao.

Com relação à proibição de sair com comida, a explicação é que o alimento é entregue de acordo com a contagem dos que estão no abrigo. A regra é a mesma para todos os 13 abrigos instalados em Roraima.

“Muitas vezes aconteceu de levarem para fora e não darem para as crianças ou idosos [no abrigo]. Por isso, não permitem que saiam com alimentos doados no abrigo”, explicou Vânia dos Santos, a Clara, da Fraternidade Internacional.