Brasileiros contam como é fazer turismo na isolada Coreia do Norte

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Nem Japão, nem China, nem Índia. O país asiático escolhido para passar férias pelos três brasileiros entrevistados para esta reportagem foi a Coreia do Norte.

O fato de se tratar de um dos territórios mais fechados do mundo não foi um problema, mas  um atrativo para o publicitário Marcelo Druck, de 24 anos, o produtor de conteúdo Gabriel Prehn Britto, de 37 anos, e o servidor público Guilherme Bahia, de 34 anos, que estiveram por lá antes da mais recente crise entre Pyongyang e a comunidade internacional.

Eles queriam ver de perto como é a vida na isolada nação comunista, governada por uma ditadura desde os anos 1940. Tão isolada que alguns de seus moradores não sabem que o astro do pop Michael Jackson morreu, mesmo isso tendo acontecido em 2009.

“Fui eu que dei a notícia”, conta Marcelo Druck, que esteve no país no fim do ano passado. “Eles amam Michael Jackson e Madonna. Não conheciam música brasileira, mas coloquei para ouvirem e adoraram Wando e Pepeu Gomes”, completa.

O publicitário se interessou pelo país ao ler sobre o tema, e começou a juntar dinheiro para a viagem quando morreu o ditador Kim Jong-il, em 2011. “Parecia tudo tão exótico, tão diferente, que quis ver de perto”, diz. Ele chamou os amigos, mas “ninguém topou”, conta, rindo.

Assim como muitos turistas ocidentais que vão até lá, Marcelo fez o pacote de viagem com uma agência baseada na China, que cuida de todos os trâmites e documentos necessários. (Leia Perguntas e Respostas sobre questões práticas da viagem no fim desta reportagem).

A agência contratada por ele, chamada Koryo Tours, é britânica e promete colocar o turista “perto dos moradores locais” e dar as informações “mais exatas e detalhadas sobre o país e o que acontece por lá”.

Hannah Barraclough, porta-voz da empresa, disse ao G1 que são poucos os brasileiros que procuram o serviço. “Provavelmente, levamos menos de 20 por ano”, afirma.

Ela diz que a Coreia do Norte recebe anualmente cerca de 5 mil turistas ocidentais. Outras fontes citam um número mais baixo, de 2 mil a 3,5 mil pessoas. O número de turistas chineses é bem maior: estimado em 20 a 30 mil.

Segundo a porta-voz, a Koryo Tours leva cerca de 2,3 mil viajantes ocidentais ao país comunista a cada ano. Também organiza viagens de escolas de Hong Kong para lá, para promover intercâmbio cultural entre os estudantes.

Hannah garante que é seguro viajar para lá, mesmo com as ameaças recente do país comunista de começar uma guerra termonuclear na Península Coreana. “Pararemos de fazer o tour se considerarmos que é inseguro ou se a Embaixada Britânica nos disser para pararmos”, afirma.

Marcelo Druck diz que fica “aflito” com a situação atual porque se apegou aos guias norte-coreanos que o acompanharam na viagem.

“Até tentei pegar o endereço deles para manter contato nem que fosse por carta, mas eles não são autorizados a dar”, diz.

Roteiro rígido
Muitos viajantes vão à Coreia do Norte em grupos, mas Marcelo Druck preferiu contratar o pacote por conta própria. Como não é permitido ir completamente sozinho, ele teve a companhia (constante) de dois guias e um motorista.

O publicitário acredita que foi uma boa opção porque pôde sair um pouco do roteiro pré-programado, que costuma ser rígido. “Conquistei a confiança dos guias e pude ver algumas estátuas que não estavam no programa e até comprar uma camisa de futebol da seleção norte-coreana em uma loja de departamentos aonde só vão os moradores”, comemora.

Com a ajuda da agência chinesa, o visto (que custou cerca de 50 euros) saiu facilmente. “Foi o visto mais fácil que tirei na vida”, diz. O passaporte não foi carimbado na fronteira e ficou com os guias até a volta.

Um dos guias, um estudante de relações internacionais, falava português. A outra guia falava espanhol por ter morado em Cuba – ela inclusive conhecia novelas brasileiras, que via na TV cubana.

Para Marcelo, a experiência valeu a pena. “Foi superprodutiva. Se não fosse tão caro, eu voltaria para lá”, afirma.

Ambos tinham interesse em conhecer a república comunista por ser um lugar totalmente diferente.

“Sempre fui meio aventureiro, gosto de me meter em ‘buracos’. Fui visitar meu irmão, que morava na Coreia do Sul, e na última hora resolvi ficar pela Ásia e ir à Coreia do Norte”, conta Guilherme, que afirma ter se surpreendido com a facilidade para entrar na república comunista via agência. “As pessoas imaginam que é superdifícil, mas não é. Você paga pelo pacote e pelo visto, e pronto.”

Dois guias norte-coreanos e uma inglesa os acompanhavam. Logo no início da viagem, ouviram de um deles que se preparassem para uma jornada estilo excursão escolar, na qual as decisões não são tomadas pelos viajantes.

Gabriel conta que na prática, porém, a vigilância não foi tão intensa quanto ele imaginava. “O guia fica olhando as pessoas, mas não fica em cima de cada uma, o tempo todo”, relata.

Segundo Guilherme, o clima de relativa confiança foi construído porque ninguém do grupo tentou fugir às regras. “Os guias pedem para que a gente não tente nada fora do esquema, e ninguém experimentou”, diz.

Grande Monumento Mansudae, um dos mais visitados por turistas na Coreia do Norte (Foto: Gabriel Prehn Britto/Arquivo pessoal)

A escolha dos passeios, porém, é toda montada para causar uma boa impressão nos visitantes. Hospedados em um hotel confortável, padrão 4 estrelas, os turistas são levados apenas às atrações que os norte-coreanos consideram ser uma vitrine do país. “Eles querem mostrar que são uma potência, que o comunismo norte-coreano é a salvação do mundo”, afirma Gabriel.

Isso incluía uma rotina intensiva de passeios durante mais de 12 horas por dia, que passavam não apenas por estátuas, parques e monumentos, mas também por fazendas (como uma plantação de maçãs e um criadouro de tartarugas) e fábricas (por exemplo, uma engarrafadora de água mineral).

As técnicas de cultivo e fabricação eram descritas minuciosamente pelos guias, o que podia se tornar cansativo. “Tem que estar preparado para momentos de tédio. Chegava uma hora em que eu já nem prestava mais atenção”, admite Gabriel.

Ele também diz que achou Pyongyang uma cidade feia, porém interessante. “É uma cidade grandiosa, cheia de monumentos, praças gigantes, mas está caindo aos pedaços. Tem poucas cores. Todos os prédios estão precisando de reformas”, descreve.

Arirang, ou "mass games", espetáculo típico da Coreia do  Norte (Foto: Gabriel Prehn Britto/Arquivo pessoal)

O ponto alto, tanto para ele quanto para Guilherme, foi ir ao Arirang, espetáculo também conhecido como “mass games”, no qual centenas de milhares de pessoas formam painéis humanos com desenhos variados. “É impressionante. Não deve nada a uma abertura de Olimpíada”, diz Guilherme.

O contato com o povo coreano foi dificultado pela barreira do idioma — pouquíssimos falam inglês. Mas Gabriel diz que achou as pessoas muito receptivas e sorridentes. “Elas são curiosas, querem saber o que estamos achando do país. Quando ouvem que somos brasileiros, falam de futebol, de Ronaldo. Eles foram simpáticos até com os norte-americanos do grupo”, afirma.

Segundo Guilherme, a experiência fez com que ele se sentisse dentro do livro “1984”, de George Orwell. “Você está em um estado completamente totalitário. Todas as pessoas pensam igual, agem igual”, afirma.

Gabriel acredita que o passeio agrada somente ao tipo de turista interessado em conhecer uma forma de vida diferente. “Se uma pessoa vai atrás de turismo normal não vai gostar. Tem que ir sabendo que você fará parte de uma encenação, que inclui atrações maravilhosas, mas outras bem chatas também. Tem que estar aberto.”

G1 Notícias

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